Um nome de rua, no centro histórico da Cidade Eterna, que marca a presença de Portugal e a ligação antiga de dois povos e duas culturas. Nesta outra "Via dei Portoghesi" queremos falar de Portugal em Roma e de Itália em Portugal.
mercoledì 9 dicembre 2009
Cavaleiro da Dinamarca - continuação da história de Sophia
Inventada por Germana Lardone...
- Quem mora ali ? perguntou o Cavaleiro
O mercador respondeu que o dono daquele palácio era Ser Bartolomeo Brandolin, um coleccionador, amante da arte e homem de raro e sensível gosto e começou a contar a sua história...
Bartolomeo Brandolin nascera numa famiglia de abastados comerciantes e começara a viajar, com seu pai e tios, na adolecência.
Era um jovem que tinha muita curiosidade pelo mundo oriental e uma grande sensibilidade pelos objectos belos.
Durante as sua viagens ao Oriente aprendeu a conhecer e estimar formas de arte diferentes daquelas suas conhecidas.
Comprava mercadorias preciosas para vendê-las no regreso a Veneza, mas nunca vendia os objectos dos quais mais gostava.
Dessa maniera, ao longo dos anos, reuniu muitas obras de arte de grande valor: quadros, esculturas, cerâmicas orientais, artigos de vidro da Siría, manuscritos, libros antigos, mobiliário oriental, tapeçarias, têxteis, peças de joalharia, moedas antigas, medalhas...
Ele gosta tanto da sua colecção que, ao pôr-do-sol, os criados devem acender todos os candelabros do palácio: desta maniera Ser Bartolomeo continua a fazer viver na luz as obras que tanto ama.
Ele anda devagar de sala em sala contemplado a arte que preenche a sua vida.
GERMANA LARDONE
História e Estória - por Germana Lardone
Resultado de uma pesquisa feita pela nossa aluna GERMANA LARDONE.
Obrigado, Germaninha!
História – Estória
Os vocábulos história e estória partilham a mesma etimologia do grego antigo, historie, no sentido de testemunho.
"Estória" é a grafia antiga da palavra "história", que caiu em desuso na língua falada em Portugal e não aparece nos recentes dicionários editados em Portugal.
Estória é considerada agora um neologismo para designar, no campo do folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, o mito.
História é a ciência que estuda o homem e a sua acção no tempo e no espaço e também a narração ordenada e escrita dos acontecimentos e actividades humanas ocorridas no passado.
Por outras palavras pode-se dizer que história e estória correspomdem as palavras inglesas history e story.
Os vocábulos história e estória partilham a mesma etimologia do grego antigo, historie, no sentido de testemunho.
"Estória" é a grafia antiga da palavra "história", que caiu em desuso na língua falada em Portugal e não aparece nos recentes dicionários editados em Portugal.
Estória é considerada agora um neologismo para designar, no campo do folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, o mito.
História é a ciência que estuda o homem e a sua acção no tempo e no espaço e também a narração ordenada e escrita dos acontecimentos e actividades humanas ocorridas no passado.
Por outras palavras pode-se dizer que história e estória correspomdem as palavras inglesas history e story.
Berlusconi em Lisboa

Notícia assinalada pelo nosso antigo aluno Massimiliano Rossi, a quem agradecemos a estima e o interesse, para além da colaboração constante com "Via dei Portoghese"...
“No Berlusconi Day” chega a Lisboa
Um grupo de "bloggers" organiza sábado uma manifestação apartidária em Roma para exigir a demissão do primeiro-ministro italiano, intitulada "No Berlusconi Day" (Dia anti-Berlusconi).
Várias cidades do Mundo, incluindo Lisboa, associaram-se ao movimento. Em Portugal, a iniciativa partiu de uma dezena de "bloggers", italianos mas também portugueses, e mantém o carácter espontâneo e apartidário da manifestação, marcada para sábado às 14:00 na Praça Luís de Camões.
"Temos a confirmação de 200 convites no Facebook. Prevemos que cada pessoa leve ao menos uma pessoa, portanto, esperamos 300 a 400 pessoas", disse à Agência Lusa Massimiliano Rossi, um dos organizadores.
Além de Roma, onde são esperadas 350.000 pessoas, e de Lisboa, estão também previstas manifestações em Londres, Paris e Sidney, entre dezenas de outras cidades.
"É a primeira iniciativa nascida de forma completamente autónoma na internet", explicou quinta-feira à imprensa em Roma Gianfranco Mascia, um dos coordenadores do movimento lançado em Outubro por meia dúzia de "bloggers" italianos.
O objectivo do "No Berlusconi Day" é a demissão de Silvio Berlusconi da chefia do governo de Itália e "desmascarar todas as formas de 'berlusconismo'", segundo Gabriella Magnano, outra das coordenadoras em Roma. Segundo Mascia, o objectivo é também "informar os cidadãos que não têm acesso à Internet".
Os organizadores afirmam ser independentes de qualquer partido e apenas aceitar a participação de personalidades políticas a título pessoal.
Em Roma, estão previstas as participações e intervenções do Nobel da Literatura Dario Fo, sobre os efeitos das políticas de Berlusconi na área da cultura, e de um magistrado, Domenico Gallo, sobre os processos judiciais contra o primeiro-ministro italiano.
Os organizadores afirmam respeitar os votos dos italianos que voltaram a eleger Berlusconi em Abril de 2008, mas consideram essa vitória eleitoral como "uma anomalia italiana que faz com que um único homem controle três televisões privadas e toda a rede pública".
Várias cidades do Mundo, incluindo Lisboa, associaram-se ao movimento. Em Portugal, a iniciativa partiu de uma dezena de "bloggers", italianos mas também portugueses, e mantém o carácter espontâneo e apartidário da manifestação, marcada para sábado às 14:00 na Praça Luís de Camões.
"Temos a confirmação de 200 convites no Facebook. Prevemos que cada pessoa leve ao menos uma pessoa, portanto, esperamos 300 a 400 pessoas", disse à Agência Lusa Massimiliano Rossi, um dos organizadores.
Além de Roma, onde são esperadas 350.000 pessoas, e de Lisboa, estão também previstas manifestações em Londres, Paris e Sidney, entre dezenas de outras cidades.
"É a primeira iniciativa nascida de forma completamente autónoma na internet", explicou quinta-feira à imprensa em Roma Gianfranco Mascia, um dos coordenadores do movimento lançado em Outubro por meia dúzia de "bloggers" italianos.
O objectivo do "No Berlusconi Day" é a demissão de Silvio Berlusconi da chefia do governo de Itália e "desmascarar todas as formas de 'berlusconismo'", segundo Gabriella Magnano, outra das coordenadoras em Roma. Segundo Mascia, o objectivo é também "informar os cidadãos que não têm acesso à Internet".
Os organizadores afirmam ser independentes de qualquer partido e apenas aceitar a participação de personalidades políticas a título pessoal.
Em Roma, estão previstas as participações e intervenções do Nobel da Literatura Dario Fo, sobre os efeitos das políticas de Berlusconi na área da cultura, e de um magistrado, Domenico Gallo, sobre os processos judiciais contra o primeiro-ministro italiano.
Os organizadores afirmam respeitar os votos dos italianos que voltaram a eleger Berlusconi em Abril de 2008, mas consideram essa vitória eleitoral como "uma anomalia italiana que faz com que um único homem controle três televisões privadas e toda a rede pública".
venerdì 4 dicembre 2009
Imaculada Conceição: celebrações portuguesas em Roma

Na próxima terça-feira a Igreja festeja o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, festa particularmente sentida em Portugal, como em Itália, e afectivamente assocada, até há bem pouco, ao "dia da Mãe".
Em Portugal, aliás, a Imaculada é venerada como a sua Padroeira, e tal facto está ligado à história de Portugal. A 25 de Março de 1646 D. João IV, à vista da imagem da Imaculada no seu Santuário de Vila Viçosa (Alentejo, Portugal) e como agradecimento da vitória na guerra da Restauração da Independência (1.12.1640), proclamou Nossa Senhora Rainha de Portugal, tendo sido desde então representada com a coroa real na cabeça.
A comunidade portuguesa de Roma celebra a data em dois dias sucessivos.
A 7 de Dezembro, às 18h30 na igreja nacional, vai celebrar-se o primeiro ano sobre a inauguração do grande órgão de Santo António dos Portugueses. O seu organista titular, Maestro Giampaolo Di Rosa, irá executar F. LISZT (1811-1886) Fantasia e fuga sul nome di BACH (Trascrizione organistica dalla II versione pianistica del 1870, a cura di G. Di Rosa); O. MESSIAEN (1908-1992) Dal “Livre d’Orgue”:- Les yeux dans les roues- Soixante-quatre durées; G. DI ROSA (1972) Toccata, adagio e fuga sul nome di BACH (2009) Studio da concerto per pedale d’organo soloPrima esecuzione; J. S. BACH (1685-1750) Passacaglia BWV 582.
No dia seguinte, às 17 horas, o Bispo de Vila Real, S. E. R. Mons. Joaquim Gonçalves vai celebrar missa solene.
São todos bem-vindos à Via dei Portoghesi.
Muito para além dos chapéus, que os há, e muitos - por Rocco Costantino
O nosso aluno Rocco Costantino, escreveu este belíssimo texto, de grande profundidade, partindo da visão do filme "A Canção de Lisboa"... Partindo do riso, fez-se um discurso coisa muito sério... Buito bem, Rocco! Muito obrigado pelo texto e parabéns por ideias tão claras e tão justas!“A canção de Lisboa” é um filme de 1933, mas ainda hoje é muito divertido e sobretudo parece um filme mais novo do que muitos dos filmes recentes. A alternância da parte falada e da parte cantada é conduzida com grande capacidade. Para mim foi uma verdadeira surpresa ver um filme assim antigo mas ao mesmo tempo tão moderno e simples, acessível a todos.
Entre tantas coisas, também o cinema em Portugal é uma contínua surpresa. O seu cinema, os seus escritores, o Porto, Lisboa, o fado, e também nossos jovens professores Duarte e Francisco - todos motivos válidos para continuar a estudar o idioma e a cultura portugueses.
No filme há uma expressão repetida muitas vezes: Chapéus há muitos, seu palerma. No contexto do filme parece significar “não interessa nada”, também pode significar (come diz a nossa Vilma) que não se deve escolher o chapéu dos outros, que Chapéus há muitos pode significar ser um homem livre.
A minha ideia é diferente: com certeza chapéus há muitos, como aliás há muitos tipos de pessoas. Há pessoas bonitas, feias, altas, baixas, brancas, negras, amarelas, católicas, muçulmanas, budistas, ateias... Chapéus há muitos. O problema está no facto de julgar e dividir as pessoas, que é sem dúvida o “desporto” mais difundido em todas as épocas e todas as civilizações. Mesmo as religiões parecem existir só para dividirem as pessoas em justas e erradas e aplicarem à letra “Divide e impera”.
Todos têm na sua cabeça uma balança para julgarem quem é bom e quem é mau. O branco é sempre bom (quando é rico), o negro sempre mau (especialmente quando é pobre), os pobres não têm vontade para trabalharem e, se por acaso não são da nossa raça, significa que todas as outras raças não têm vontade de trabalhar e são delinquentes.
Nunca se olha a pessoa, só o seu chapéu parece ser importante. Por sorte, todos os que julgam e dividem são palermas, é muito fácil enganá-los, basta mudar chapéu... Chapéus há muitos. Basta mudar de fato, mudar de carro, mudar de cor de cabelos ou de pele e o juízo de valor logo muda também. Assim há muitos palermas: os que julgam só o chapéu e os que avalizam, mudando chapéu, essa estupidez.
Até agora fiz um discurso muito optimista, dizendo que o julgar pelo chapéu e o mudar de chapéu são sinais de estupidez. Mas a realidade é outra, muito pior: julgar e mudar chapéu são quase sempre a maneira escolhida pelos homens para ficarem sempre à superfície, sempre no poder, para ganharem dinheiro de qualquer maneira.
ROCCO COSTANTINO
Entre tantas coisas, também o cinema em Portugal é uma contínua surpresa. O seu cinema, os seus escritores, o Porto, Lisboa, o fado, e também nossos jovens professores Duarte e Francisco - todos motivos válidos para continuar a estudar o idioma e a cultura portugueses.
No filme há uma expressão repetida muitas vezes: Chapéus há muitos, seu palerma. No contexto do filme parece significar “não interessa nada”, também pode significar (come diz a nossa Vilma) que não se deve escolher o chapéu dos outros, que Chapéus há muitos pode significar ser um homem livre.
A minha ideia é diferente: com certeza chapéus há muitos, como aliás há muitos tipos de pessoas. Há pessoas bonitas, feias, altas, baixas, brancas, negras, amarelas, católicas, muçulmanas, budistas, ateias... Chapéus há muitos. O problema está no facto de julgar e dividir as pessoas, que é sem dúvida o “desporto” mais difundido em todas as épocas e todas as civilizações. Mesmo as religiões parecem existir só para dividirem as pessoas em justas e erradas e aplicarem à letra “Divide e impera”.
Todos têm na sua cabeça uma balança para julgarem quem é bom e quem é mau. O branco é sempre bom (quando é rico), o negro sempre mau (especialmente quando é pobre), os pobres não têm vontade para trabalharem e, se por acaso não são da nossa raça, significa que todas as outras raças não têm vontade de trabalhar e são delinquentes.
Nunca se olha a pessoa, só o seu chapéu parece ser importante. Por sorte, todos os que julgam e dividem são palermas, é muito fácil enganá-los, basta mudar chapéu... Chapéus há muitos. Basta mudar de fato, mudar de carro, mudar de cor de cabelos ou de pele e o juízo de valor logo muda também. Assim há muitos palermas: os que julgam só o chapéu e os que avalizam, mudando chapéu, essa estupidez.
Até agora fiz um discurso muito optimista, dizendo que o julgar pelo chapéu e o mudar de chapéu são sinais de estupidez. Mas a realidade é outra, muito pior: julgar e mudar chapéu são quase sempre a maneira escolhida pelos homens para ficarem sempre à superfície, sempre no poder, para ganharem dinheiro de qualquer maneira.
ROCCO COSTANTINO
Espelho Mágico? por Rosanna Cimaglia

Ainda a respeito da projecção de um excerto de "Espelho Mágico" de Manoel de Oliveira, no passado mês de Novembro, a nossa brilhante aluna Rosanna Cimaglia inventou uma nova história para a protagonista, Alfreda... Obrigado e parabéns, Rosanna! E aos nossos leitores: bom divertimento!
Dona Alfreda da Encarnação e Silva era uma mulher muito conhecida na cidade, invejada por fazer parte duma família rica com história de gerações. A casa onde morava e passava os dias inventando as suas horas era uma quinta que ficava fora da cidade, considerada uma das mais bonitas do país e conhecida pelas gentes com o nome de “quinta dos jantares” por causa dos jantares que frequentemente Dona Alfreda organizava.
As pessoas falavam desses jantares por serem abundantes e com comidas exóticas, de sabores particulares, que não se comiam habitualmente…Todos eram convidados a casa de Dona Alfreda, tanto ricos como pobres – mas, é claro, em dias diferentes! Com esse comportamento gentil e grandemente apreciado, Alfreda ganhou popularidade, mas havia alguém que a considerava com suspeita, porque não se compreendia bem as razões desse grande ímpeto para saciar o povo.
Essa atenção pelo próximo tinha criado na população uma espécie de imagem mística dela, tal que se dizia que a Dona Alfreda da Encarnação e Silva era como a Nossa Senhora na terra! E ela, mulher egocêntrica e excêntrica que gostava surpreender o próximo, ficava tão orgulhosa com essa definição que começou a fantasiar sobre a Virgem Maria e a dedicar-se ao misticismo, ao descobrimento da figura de Nossa Senhora e das semelhanças que tinha com ela, pois era um meio para se exaltar e empregar o seu tempo.
Entre um banho na piscina e um Martini, Alfreda começou o seu caminho de elevação espiritual falando das sua aspirações místicas com amigos, empregados da quinta, religiosos, e acabou por contactar uma monja muito famosa que vinha da Espanha só para falar de “técnicas de revelações” e aprendizagem da fé e para tentar dar graça ao seu ânimo. O que Alfreda desejava sobretudo era ver a Virgem Maria mas, apesar dos exercícios espirituais - depois o pequeno almoço, o almoço e o jantar - apesar do ioga - duas vezes por dia - apesar dos rosários com pais-nossos e ave-marias, o estado de graça desejado não chegava… Que fazer mais?
Uma noite, depois um dos seus pantagruélicos jantares, Alfreda retirou-se para o seu quarto com esta pergunta na cabeça: “que fazer mais?”. Parou diante do grande espelho, e dado que tinha trazido um prato da mesa, foi pô-lo sobre a mesa da cabeceira. Voltou ao espelho e fixando os seus olhos que se reflectiam nele, repetia a si mesma a mesma pergunta. Como num estado de hipnose, viu um turbilhão de ondas e luz em redor da sua figura, que a atiraram no centro do espelho até desaparecer…
Embrulhada numa grande luz, Alfreda fez uma viagem através do tempo e do espaço chegando a um lugar desconhecido. Parecia uma aldeia antiga, oriental, não havia ninguém na rua , mas ela ouviu uma voz de homem chamar:
“Maria, Maria…onde é que vais? Maria, volta para casa, está frio aí fora, toma, leva o teu manto…é preciso ter cuidado, nas tuas condições…”
Alfreda voltou-se, viu um homem que estava a falar com ela, mas ela não compreendia. O seu nome não era Maria. E porque é que ele lhe dizia “nas tuas condições” ? Um instante depois sentiu uma dor no ventre e só naquele momento percebeu que estava grávida… grávida… e como aconteceu este facto? O homem tomou a sua mão e ela seguiu-o.
O resto da historia é conhecido: nasceu uma criança, começaram as peregrinações através daquela terra desconhecida, árida, tórrida onde o sol era tão forte que Alfreda/Maria, depois tanto caminhar, caía prostrada, sem forças, na areia ardente do deserto, pedindo ajuda gritando “Ajuda-me, ajuda-me…a criança, Zé, a criança…”
Na “quinta dos jantares”, a meio da noite, o lamento de Dona Alfreda era tão forte que chegou até ao quarto da sua criada Joana que, preocupada, precipitou-se até onde Alfreda dormia. Joana abriu a porta e viu Dona Alfreda que se torcia na sua cama, em delírio, e que num estado de confusão repetia “ a criança, Zé, a criança…”.
A criada, com voz alta, despertou-a e perguntou-lhe: ”Ó Senhora Dona Alfreda, se faz favor… de que criança está a falar… não há crianças na quinta...”
Alfreda abriu os olhos e viu na cara da sua criada numa expressão interrogativa. Naquele momento ela compreendeu: olhou o quarto, o espelho e voltando-se na cama para a mesa da cabeceira, fixou um prato vazio que estava sobre esta…
“Criança? Ah sim, minha Joana, temos de nos lembrarmos de dizer ao Paulo que a criança que vem da loja da Dona Maria Gonçalves não deve trazer aqueles cogumelos de cores de arco-íris para os próximos jantares…!”
As pessoas falavam desses jantares por serem abundantes e com comidas exóticas, de sabores particulares, que não se comiam habitualmente…Todos eram convidados a casa de Dona Alfreda, tanto ricos como pobres – mas, é claro, em dias diferentes! Com esse comportamento gentil e grandemente apreciado, Alfreda ganhou popularidade, mas havia alguém que a considerava com suspeita, porque não se compreendia bem as razões desse grande ímpeto para saciar o povo.
Essa atenção pelo próximo tinha criado na população uma espécie de imagem mística dela, tal que se dizia que a Dona Alfreda da Encarnação e Silva era como a Nossa Senhora na terra! E ela, mulher egocêntrica e excêntrica que gostava surpreender o próximo, ficava tão orgulhosa com essa definição que começou a fantasiar sobre a Virgem Maria e a dedicar-se ao misticismo, ao descobrimento da figura de Nossa Senhora e das semelhanças que tinha com ela, pois era um meio para se exaltar e empregar o seu tempo.
Entre um banho na piscina e um Martini, Alfreda começou o seu caminho de elevação espiritual falando das sua aspirações místicas com amigos, empregados da quinta, religiosos, e acabou por contactar uma monja muito famosa que vinha da Espanha só para falar de “técnicas de revelações” e aprendizagem da fé e para tentar dar graça ao seu ânimo. O que Alfreda desejava sobretudo era ver a Virgem Maria mas, apesar dos exercícios espirituais - depois o pequeno almoço, o almoço e o jantar - apesar do ioga - duas vezes por dia - apesar dos rosários com pais-nossos e ave-marias, o estado de graça desejado não chegava… Que fazer mais?
Uma noite, depois um dos seus pantagruélicos jantares, Alfreda retirou-se para o seu quarto com esta pergunta na cabeça: “que fazer mais?”. Parou diante do grande espelho, e dado que tinha trazido um prato da mesa, foi pô-lo sobre a mesa da cabeceira. Voltou ao espelho e fixando os seus olhos que se reflectiam nele, repetia a si mesma a mesma pergunta. Como num estado de hipnose, viu um turbilhão de ondas e luz em redor da sua figura, que a atiraram no centro do espelho até desaparecer…
Embrulhada numa grande luz, Alfreda fez uma viagem através do tempo e do espaço chegando a um lugar desconhecido. Parecia uma aldeia antiga, oriental, não havia ninguém na rua , mas ela ouviu uma voz de homem chamar:
“Maria, Maria…onde é que vais? Maria, volta para casa, está frio aí fora, toma, leva o teu manto…é preciso ter cuidado, nas tuas condições…”
Alfreda voltou-se, viu um homem que estava a falar com ela, mas ela não compreendia. O seu nome não era Maria. E porque é que ele lhe dizia “nas tuas condições” ? Um instante depois sentiu uma dor no ventre e só naquele momento percebeu que estava grávida… grávida… e como aconteceu este facto? O homem tomou a sua mão e ela seguiu-o.
O resto da historia é conhecido: nasceu uma criança, começaram as peregrinações através daquela terra desconhecida, árida, tórrida onde o sol era tão forte que Alfreda/Maria, depois tanto caminhar, caía prostrada, sem forças, na areia ardente do deserto, pedindo ajuda gritando “Ajuda-me, ajuda-me…a criança, Zé, a criança…”
Na “quinta dos jantares”, a meio da noite, o lamento de Dona Alfreda era tão forte que chegou até ao quarto da sua criada Joana que, preocupada, precipitou-se até onde Alfreda dormia. Joana abriu a porta e viu Dona Alfreda que se torcia na sua cama, em delírio, e que num estado de confusão repetia “ a criança, Zé, a criança…”.
A criada, com voz alta, despertou-a e perguntou-lhe: ”Ó Senhora Dona Alfreda, se faz favor… de que criança está a falar… não há crianças na quinta...”
Alfreda abriu os olhos e viu na cara da sua criada numa expressão interrogativa. Naquele momento ela compreendeu: olhou o quarto, o espelho e voltando-se na cama para a mesa da cabeceira, fixou um prato vazio que estava sobre esta…
“Criança? Ah sim, minha Joana, temos de nos lembrarmos de dizer ao Paulo que a criança que vem da loja da Dona Maria Gonçalves não deve trazer aqueles cogumelos de cores de arco-íris para os próximos jantares…!”
ROSANNA CIMAGLIA
Entrevista a Saramago traduzida por Roberta Spadacini

No seguimento da notícia aqui publicada no mês passado (http://viadeiportoghesi.blogspot.com/2009/11/saramago-e-signora-io-donna-del.html), vimos agora publicar a entrevista feita a Saramago e a Pilar del Rio quando vieram a Itália para o lançamento da versão italiana de "O Caderno".
Agradecemos muitíssimo à nossa aluna Roberta Spadacini o empenho e a perfeição com que traduziu este texto publicado na revista "Io Donna" a 24 de Outubro.
CASEI-ME COM O MEU OPOSTO
José Saramago e a mulher Pilar Del Rio estão em Itália para apresentar “O Caderno” (Bollati Boringhieri), o último livro do escritor português.
Para ele nada funciona, para ela notá-lo é já um bom sinal. Ela fala muito, ele está em silêncio. Juntos há trinta anos, o Nobel português e a mulher Pilar contam-nos como são diferentes. Mas iguais.
di Giulia Calligaro
José Saramago e a mulher Pilar Del Rio estão em Itália para apresentar “O Caderno” (Bollati Boringhieri), o último livro do escritor português.
Para ele nada funciona, para ela notá-lo é já um bom sinal. Ela fala muito, ele está em silêncio. Juntos há trinta anos, o Nobel português e a mulher Pilar contam-nos como são diferentes. Mas iguais.
di Giulia Calligaro
“Se tivesse entendido imediatamente como ele era nunca o teria casado”. Surpreende-me depois duma meia hora de palavras suaves Pilar Del Rio, mulher do prémio Nobel José Saramago, em Itália com o marido para apresentar “Il Quaderno” (Bollati Boringhieri), o novo livro nascido dum blog escrito pelo grande romancista português entre Setembro 2008 e Maio 2009, decididamente sem poupar eventos ou pessoas.
QUER DIZER QUE TROCOU TUDO? Pergunto-lhe numa sala de estar na entrada dum hotel de Turim, enquanto ele está sentado em frente, e finge de não ouvir.
“Não, absolutamente”. Assegura-nos a senhora com um sorriso solar e o olhar vivaz sempre dirigido ao marido. “Mas se tivesse sabido quanto somos diferentes, tinha tido medo”.
O encontro fatal aconteceu há 23 anos, quando Pilar, jornalista andaluza, foi ao encontro de Saramago em Lisboa para escutar a leitura do suo “O ano da morte de Ricardo Reis”, num itinerário lusitano que atravessou as etapas do livro. Estava-se em1986, ele tinha 63 anos e ela 36. Dois casamentos e uma filha ele, um divórcio e um filho ela. Apertam as mãos, trocam os endereços, e um mês depois ele vai ter cm ela pela via da Espanha e trá-la para Portugal. Um ano e casam-se.
DEL RIO: “ Em seguida casamo-nos outra vez em 2007 na Espanha, porque o casamento não foi registrado”. Nada mal para quem hoje tem estas dúvidas.
O QUE É QUE A CONVENCEU EM CASAR-SE?
“Estimava o escritor e descobri que o ser humano era exactamente igual ao artista: coerente, valoroso, rebelde”.
SARAMAGO: “Eu tinha entendido imediatamente que ela era muito diferente, mas o meu problema eram os meus amigos: diziam-me que era demasiado jovem, que não podia durar”.
Efectivamente Saramago escutava-nos. E o que mais assombra desta nova versão do autor do “Ensaio sobre a cegueira” e “A jangada de pedra” é que até há uma hora me falava com o indicador levantado, desejando que a palavra “esperança” fosse banida do dicionário, proclamando não só não acreditar na imortalidade da alma, mas nem mesmo na da obra: “Eu escrevo só para o meu tempo e sei que tudo vai morrer”, afirmava desafiando os seus 87 anos. Nenhum pacto com Deus, afinal – o seu novo romance “Caim” em estreia em Portugal, anuncia-se irreverente como foi “ O Evangelho segundo Jesus Cristo” e mostra mesmo a coragem de dizer que debater sobre o significado da vida é obsceno.
E O AMOR?
S “Há o amor dos 18 anos, o dos 40 e o dos 80. Falamos do amor eterno só porque somos mortais, mas não há um só amor. O que tenho pela Pilar, defeni-lo-ia como o verdadeiro amor, o que dá alegria”.
DR “A satisfação e a alegria de estar juntos”.
Até agora tudo permanece em harmonia. Mas se lhes pergunta o que é é esta alegria respondem:
S “ Estar juntos em silêncio”.
DR “ Não, eu nunca estou em silêncio”.
E aqui começa a disputa: porque ela é impulsiva e ele é reflexivo, ele é racional e ela é emotiva, ele é inflexível e ela disposta a mediar.
UMA VEZ MAIS NESTE LIVRO, SARAMAGO É MUITO PESSIMISTA, E A SENHORA?
DR “Absolutamente optimista, mas agora revelo-lhe o segredo da nossa união: nós achamos a mesma coisa, temos a mesma visão do mundo, a mesma visão política militante, o mesmo sentido de justiça. Só que ele diz que nada vai bem: o escândalo Berlusconi em Itália, os efeitos da presidência Bush no mundo, a pobreza, as guerras de religião. E chama tudo isto “pessimismo”. Eu digo que quando se nota que alguma coisa não funciona já é um primeiro passo para mudá-la: por isso eu o chamo “optimismo”. A ideia é igual, mas as palavras são opostas”.
QUANTO LHE CUSTA SER A SRª SARAMAGO?
DR “Todas as relações humanas são complicadas. Ainda mais quando é com uma pessoa pública porque implicam uma devoção total. Eu traduzo a obra do meu marido em espanhol, presido a Fundação Saramago que inaugurámos em 2007 em Lanzarote, onde vivemos desde há quinze anos, acompanho-o nas suas viagens e também trabalho como jornalista”.
ALGUMA RENÚNCIA?
DR “Fiz a minha escolha, por isso nenhuma renúncia. O nó verdadeiro é ter a capacidade de nos desenvolvermos da mesma maneira e nós temos. Se uma parte permanece atrás o casal fica infeliz. Muitas mulheres que têm uma vida desenvolvida ficam sozinhas porque nenhum homem é capaz de as seguir. Pensemos no governo espanhol: metade é formado por mulheres e entre todas há três filhos e um casamento. No XXI século é ainda necessário escolher família ou carreira, não há uma forma alternativa de sociedade. As mulheres seguem mais facilmente os empenhos dos homens e não vice-versa.
A DIFERENÇA DE IDADE FOI UM PROBLEMA?
DR “Não, nem de um ponto de vista físico nem psicológico. É uma relação madura, que veio depois de outros casamentos”.
Não hesitamos em acreditar que a energia da Pilar foi o aguilhão que esporeou o marido a escrever o blog. Um fenómeno novo para um escritor que se define “homem antigo” e que com outras armas fez oposição a um regime como o de Salazar no seu país.
ACREDITA QUE HOJE A FACILIDADE DA COMUNICAÇÃO TAMBÉM TRAZ UMA MAIOR EFICÁCIA DA PALAVRA?
S “Pelo êxito que teve o livro deduzo que a superstição do novo faça pensar que a tecnologia é a guardiã de grandes coisas. Pelo contrário eu acho que pelo facto da internet se ter enchido de frivolidades, nunca poderá substituir as artes maiores”.
De momento o blog surtiu efeito inesperado, visto que por causa de uma invectiva “sincera” contra o nosso Premier, a Einaudi renunciou à publicação do livro. Nenhuma cortesia para Bush ou Sarkozy. Com Obama todavia acende-se uma luz.
BARACK OBAMA LEVA O PRÊMIO NOBEL DA PAZ. DIGA-NOS ALGO.
S “A sua eleição foi uma grande notícia, este prémio chega um pouco cedo. Desejo que seja para o que vai fazer”.
Pilar diz que sim com a cabeça e agita as mãos para dizer também ela a sua opinião enquanto ele quer prosseguir, com resolutos “nãos”.
QUAL FOI O MELHOR PRESENTE QUE LHE DEU A SUA MULHER PILAR?
S “Deu-me a sua grande capacidade de amar. Não digo que antes tenha sido um egoísta, mas ela vive para os outros.
E PARA A SENHORA, QUAL FOI O MELHOR PRESENTE QUE LHE DEU O SEU MARIDO?
DR “Ensinou-me a ter uma posição firme. Onde ele é intransigente, eu sou sempre demasiado transigente”.
S “Somos complementares”.
DR “Tese, antítese, síntese: uma receita perfeita”.
E leva-o pela mão até ao elevador, esperando com grande força o seu passo.
Tradução para português de ROBERTA SPADACINI
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