venerdì 10 giugno 2016

Dia de Camões

  Amália canta Camões


Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.





Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a u~a alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões

Dia de Portugal





— Extraordinário, aquele Gonçalo!

O Videirinha não findara o seu enlevado sorriso:

— Tem muito talento... Ah! o Sr. Doutor tem muito talento.

— Tem muita raça! - exclamou o Titó, levantando a cabeça. - E é o que o salva dos defeitos... Eu sou amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o escondo, nem a ele... Sobretudo a ele. Muito leviano, muito incoerente... Mas tem a raça que o salva.

— E a bondade, Sr. Antônio Vilalobos! - atalhou docemente Padre Soeiro. - A bondade, sobretudo como a do Sr. Gonçalo, também salva... Olhe, às vezes há um homem muito sério, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguém gosta dele, nem o procura. Por quê? Porque nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que ofendeu mesmo a lei... Mas quê? É amorável, generoso, dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdoe, se Deus também o não prefere...

A curta mão que acenara para o céu recaiu sobre o cabo de osso do guarda-sol. Depois, e corado com a temeridade de pensamento tão espiritual, acudiu cautelosamente:

— Que esta não é propriamente doutrina da Igreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas almas.

Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

— Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?

— Quem?

— Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

— Quem?...

— Portugal.

Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, Capítulo XII

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas




10 de junho: Comemorações pela primeira vez em "território espiritual" de Portugal



Pela manhã, a partir das 10h00, haverá a habitual parada militar, a revista às Forças em parada, a continência e a homenagem aos militares mortos em combate. O também tradicional discurso de Marcelo Rebelo de sousa enquanto Chefe Supremo das Forças Armadas encerra as comemorações em território nacional, que se iniciaram esta quinta-feira na capital portuguesa.

Já o local das comemorações representa um certo regresso ao passado. As comemorações vão acontecer na Praça do Comércio, local onde o Estado Novo concentrava as comemorações do então denominado "Dia da Raça", numa exaltação patriótica e militar.

Uma cerimónia que se prevê que dure cerca de uma hora, uma hora e meia, com a presença de outras figuras do Estado: o primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues. Figuras que acompanham Marcelo Rebelo de Sousa para o palco maior das comemorações este ano: Paris.

Comemorações em "território espiritual"

A grande festa com a comunidade portuguesa está marcada para Paris, a capital francesa. Mas antes Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa serão recebidos no Palácio do Eliseu pelo presidente francês François Hollande, cerca das 17h00, hora portuguesa, 18h00 na hora local francesa.

As comemorações oficiais com os portugueses vão decorrer depois na Câmara Municipal de Paris, onde deverá haver discursos de Hollande, da maire de Paris, Anne Hidalgo, e a segunda intervenção oficial do Presidente Português. Cerimónias que vão ter início às 18h15 hora de Lisboa, ou seja, 19h15, hora francesa.

Ou seja, muito pouco tempo antes de começar o jogo inaugural do Euro 2016, o França-Roménia marcado para as 20h00, hora portuguesa, no Stade de France. Estádio que em novembro de 2015 foi um dos alvos de ataques terroristas.

O recrudescer do policiamento na capital francesa é questão premente devido ao início do campeonato Europeu de futebol. As questões de segurança não ficaram ausentes dos planos de festa dos portugueses.

Em novembro do ano passado, Paris era alvo de atentados que vitimaram mais de uma centena de pessoas. Em março, Bruxelas esteve sob novo ataque terrorista que provocou 32 mortos.

E foi exatamente na sequência desses ataques que o Marcelo Rebelo de Sousa quis marcar posição. Garantia então que as comemorações do 10 de junho se manteriam em solo francês, sem vacilar perante a ameaça de atentados.

“Não vacilamos, não temos medo, não nos intimidamos com a atuação daqueles que não prezam nem a liberdade, nem a tolerância”, assegurava o Presidente da República.


MAIS sobre o 10 de junho em
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_de_Portugal,_de_Cam%C3%B5es_e_das_Comunidades_Portuguesas

giovedì 9 giugno 2016

Frei Bernardo de Vasconcelos lido pelo poeta Mário Rui de Oliveira

Revelação

Poeta incompreendido e alma crente,
busco um caminho austero e iluminado.
Ergo o olhar do mundo indiferente
E sinto o coração erguer-se, ansiado.

Vivo a sofrer a dor de toda a gente
como quem para hóstia foi fadado...
Tive a pureza num desejo ardente
De ver-me em inocente transformado!

A renúncia é o caminho... e tão custoso
Que eu ergo as mãos p’ra Deus, aflito, ansioso,
Num íntimo alvoroço de fraqueza...

O meu calvário é agreste e doloroso...
Mas busco um abandono angustioso
p’ra ser só hóstia em sangue... luz acesa!...


Frei Bernardo de Vasconcelos, 1920

 
Bernardo Vaz Lobo Teixeira de Vasconcelos (São Romão do Corgo, Celorico de Basto, 7 de Julho de 1902 — Foz do Douro, 4 de Julho de 1932), mais conhecido por Frei Bernardo de Vasconcelos, foi um poeta místico e monge beneditino que, apesar de ter falecido a poucos dias de completar 30 anos de idade, deixou uma importante obra poética de inspiração católica. Foi autor de vários livros, um dos quais, Cântico de Amor, foi publicado no próprio dia do seu falecimento.[1] Decorre o processo para a sua beatificação.



MÁRIO RUI DE OLIVEIRA nasceu em Joane, em abril de 1973. Foi ordenado presbítero em 1997 e depois de dois anos como pároco vem para Roma estudar Direito Canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde obteve a licenciatura canónica em 2002. Depois do curriculum de doutoramento concluiu também os estudos em Jurisprudência, defendendo a tese de doutoramento em 2005, sendo moderador S.E.R. Mons. Velasio De Paolis, Secretário do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica.
Como Poeta, «O Vento da Noite» foi o seu primeiro livro, em cujo prefácio Eugénio de Andrade escreveu: «lidas as primeiras palavras, foi como se amanhecesse. Eram pequenos textos em prosa; na realidade eram breves poemas, de um ritmo preexistente, seguríssimo». Depois diss, publicou «Bairro Judaico» e traduziu para português «O Mel» de Tonino Guerra.
A sua tese de doutoramento em Direito Canónico foi publicada pela Universidade Gregoriana e tem por título «O DIREITO A VIVER DO EVANGELHO. Estudo jurídico-teológico sobre a Sustentação do Clero».