lunedì 24 agosto 2015

Maria Helena Liberdade





in memoriam di Maria Helena Portugal Barchiesi
(09.08.1923 - 21.08.2015)

A casa de Maria Helena Portugal na colina de San Saba parece uma torre de um conto de fadas, no alto desse Aventino verde e destacado da cidade, como que adormecido, como que sonhando uma realidade diferente da realidade. Nessa torre quis Maria Helena passar os últimos anos da sua vida, mantendo vivo o seu interesse pelo mundo externo, mas apartada dele. Na minha ideia mistura-se essa imagem de fidalga antiga, de torre, à de uma diva do cinema que não quis mostrar aos seus admiradores a injúria que o tempo operou na sua beleza; é que, Maria Helena era além de tudo mais uma belíssima senhora.

Paradoxalmente, é a ela – auto-exilada na sua torre, humanidade que foi conquistando o mito ainda em vida – a quem eu devo a melhor definição de liberdade, a quem mais limpidamente ouvi o som dessa palavra. Nela, liberdade era mais que modernidade (e se bom exemplo há, na sua geração, de mulher moderna e emancipada pela força da sua personalidade e inteligência, é sem dúvida Maria Helena). Nela, a liberdade era sabedoria adquirida nos anos, era terreno conquistado com esforço quotidiano, tanto em gestos e atitudes de independência, quanto nos momentos em que as circunstâncias a privaram dessa liberdade, “coisa” que me garantiu ser, de todas, a mais preciosa.

Parece-me perfeita a associação entre ela e este quadrissílabo de ascendência latina, acentuado naturalmente na penúltima, como de regra – quase a revelar o verbo dar escondido em si, numa terceira do singular do presente do indicativo: li.ber.da.de. Palavra feminina, no italiano como no português, palavra à qual sem dúvida o seu amor filológico pelas coisas deste mundo regressou muitas e muitas vezes.

Penso que se se pedisse a Maria Helena Portugal para se identificar com um “livro da sua vida” – como naqueles ingénuos jogos que se faziam à mesa, depois das refeições, no fim do século XIX – ela não hesitaria um instante em dar resposta redonda: DICIONÁRIO. A tia Lena coleccionava-os, manuseava-os, estudava-os, punha-os numa estante baixa que tinha ao pé de si, na saleta em que recebia, e estabelecia com eles uma relação de íntima amizade, que, como sabemos, implica compreensão profunda, entreajuda, respeito e, justamente, liberdade.

Outra palavra que associo à tia Lena, que determinou, a certo ponto, que a nossa imediata simpatia se tornasse verdadeira amizade (e a familiaridade com que me autorizou a chamá-la “tia”) é um nome de mulher: Cesária. A Zazá, como lhes chamávamos os dois, era a costureira de casa da tia Lena e por coincidência, era-o também em casa dos meus avós paternos. E tão íntima era a relação de ambas as famílias com a Zazá, que foi ela a vestir o corpo da mãe da tia Lena, prematuramente desaparecida, como foi ela também, anos mais tarde, a vestir a tia Lena de noiva. A Zazá, que era tão nossa também, que repousa junto aos caixões dos meus avós, no jazigo de São Pedro do Sul. Pela Zazá – e por mim, entre muitos outros – rezava a tia Lena todos os dias e eu passei a seu “sobrinho” por parte da Zazá. Dela e de uma afinidade imensa que nos unia, para além de todas as palavras.

Liberdade e Cesária, dois femininos singulares, como absolutamente feminina e singularíssima foi Maria Helena Portugal. Feminina, no que de mais forte há no termo, nessa grandeza discreta com que soube estar ao lado de um grande homem, o Professor Roberto Barchiesi, um dos pioneiros e figura maior da lusofilia em Itália, a partir da prestigiada Orientale de Nápoles. Feminina, como filha e irmã, sobretudo como mãe firme e amorosa do Paolo, do Alessandro e da Daniela, como avó da Valentina e do Riccardo. Feminina, enfim, como mulher de uma beleza e de uma elegância que pareciam contraponto perfeito da agudeza do seu espírito, da profundidade da sua inteligência, da sua generosidade. Cristã no sentido completo do termo, identificada nessas sabedoria e bondade, mas também no sofrimento, que suportou sempre com uma dignidade de rainha.

Ocorreria fazer um estudo completo sobre a sua actividade académica, através da qual ao longo de quase sessenta anos contactou com centenas de alunos, definitivamente marcados pela sua personalidade. Maria Helena Portugal é daqueles raros exemplos a quem não se ouve nunca, a ninguém, falar senão com entusiasmo e reconhecimento. Talvez também porque a ela mesma nunca ouvi senão dizer bem de todas as pessoas de quem falava, embora talvez não falasse de todas as pessoas que conheceu. No Portugal da sua juventude e depois em Roma, na Sapienza e no Instituto Português de Santo António – onde, com o marido, estruturou e dirigiu durante mais de 40 anos os cursos de língua e cultura portuguesas – ela era, realmente, uma Mestre. Começava a ensinar português aos estrangeiros com as primeiras estâncias d’Os Lusíadas; explicou-me: “estão ali concentradas as sonoridades fundamentais da nossa fonética”.

Não me apetece imaginar este mundo sem Maria Helena Portugal. O meu mundo fica irreparavelmente mutilado, sem o nosso telefonema semanal em que se falava das mais diversas coisas, se diziam poesias e anedotas e se cantava e se acabava sempre a rir (o seu humor era bem digno da sua inteligência). Maria Helena sem este mundo, ficará sem dúvida aliviada das dores e das preocupações que a tolhiam, e encontrará enfim aquela leveza ampla e luminosa que tanto condizia consigo e que me apetece chamar – rimando com eternidade – de LIBERDADE.



Francisco de Almeida Dias

1 commento:

mtt ha detto...

lamento e memoir commoventi: grazie