venerdì 24 giugno 2016

Radiana Nigro: O meu Pai



Agradecemos à nossa aluna e amiga RADIANA NIGRO o lindo e comovente texto sobre o seu Pai e a fotografia que o ilustra poeticamente... Boa leitura!


O meu Pai

Sempre gostou de café e oferecia sempre um cafezinho a todos aqueles que encontrava. A este propósito lembro-me de um episódio muito terno.
 
Depois do seu falecimento, fui um dia ao sapateiro para levantar um par de sapatos da minha Mãe (o que, até àquele momento, era uma coisa feita pelo meu pai). Quando pronunciei o meu apelido, o sapateiro diz-me, sem me olhar: «Há muito tempo que não vejo o professor». Quando eu lhe respondi que, infelizmente, o meu pai tinha falecido, o velhote levantou o olhar da bancada onde trabalhava e, com os olhos húmidos, acrescentou: «Oferecia-me sempre um cafezinho aqui ao lado».
 
Entregou-me então os sapatos e não aceitou nem um euro: «É um presente pelo seu bom Pai». Naturalmente, saí da sapataria tomada por uma grande comoção e só quando contei o facto à minha Mãe e à minha Irmã é que percebi o que eu deveria ter feito: oferecer um cafezinho ao sapateiro. Evidentemente não tenho a docura inata do meu Pai...

Além de generoso e bonito (parecia-se com alguns atores da época: Amedeo Nazzari, Gabriele Ferzetti...) era também um homem muito à frente do seu tempo e da sua origem. 

Era calabrês e dez anos mais velho que a minha Mãe, portanto, segundo os preceitos, deveria ser conservador e rígido, em especial no que respeitava a educação de nós, as suas três filhas. Pelo contrário, tinha uma mentalidade muito aberta e a única coisa que sempe nos pediu era para estudar, para fazer uma licenciatura e encontrar um trabalho que nos permitisse “uma verdadeira independência dos homens” (a citação é textual).

Tinha origem camponesa. Os meus Avós eram pequenos proprietários agrícolas, quase analfabetos.

Quando o meu Avô emigrou para o estrangeiro, primeiro para a América e depois para a Argentina, à procura de uma maior qualidade de vida, para permitir aos filhos estudarem (o que ele, infelizmento, não tinha podido fazer), a minha Avozinha ficou na Calábria com os ses quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. 

Porém, a vida não é sempre aquela que desejamos: a explosão da primeira Guerra mundial surpreendeu o meu Avô em Itália, onde tinha vindo para regressar à Argentina com a família; não só ele mesmo não pôde regressar, como também nunca conseguiu recuperar o dinheiro que tinha ganho e poupado e que ficou no estrangeiro. Toda a família recomeçou então a trabalhar nos campos, incluindo os filhos que tinham de ajudar os pais, devendo assimd eixar os estudos. Parece um romance de Dickens, mas é verdade!

Porém, é como um verdadeiro romance popular que vai concluir com final feliz...

Passaram anos, e à aldeia regressou a senhora que tinha sido professora primária do meu Pai. Sabendo que se encontravam ainda ali, foi imediatamente a casa dos meus Avós, para manifestar a sua pena ao saber que o Francesco (era este o nome do meu Pai), que era “tão inteligente”, tinha abandonado os estudos. Visto que, como já disse, também para os meus Avós a cultura era um valor fundamental – foi esta a herança que nos deixaram – a mestra convenceu-os a autorizá-la a dar aulas ao Francesco para o preparar diretamente para os exames finais do ensino secundário. 

E foi assim que o meu Pai, depois de poucos meses de estudo (o que demonstra a sua grande inteligência), conseguiu obter o diploma magistral e em breve mudou para a cidade, para frequentar a Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Nápoles – onde conheceu a minha Mãe, que estudava Ciências Naturais.

Lembro-me que, mais de uma vez, quando os meus Pais discutiam, a primeira acusação que a minha Mãe lhe fazia era “tu, que só estudaste alguns meses” ou “tu, que não fizeste os Estudos Clássicos!”...

Quero concluir dizendo que sou bastante parecida com o meu Pai – ainda que ele fosse melhor do que eu em todos os sentidos – e que tenho grande, imenso orgulho nesta semelhança.

RADIANA NIGRO

3 commenti:

Christine Vitali ha detto...

Comovente texto e cheio de gratidao, obrigada !

Roberta Pucci ha detto...

É verdadeiro que parece um romance; um texto romântico,cheio de poesia. Um texto delicado. Foi um prazer lê-lo.

Mariella Ladu ha detto...

Cara Radiana, non credo di saper esprimere la tenerezza che, tu e Franco, di cui ho un nitido ricordo, mi avete regalato. Grazie davvero, mariella ladu